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É frase batida dizer que o mundo passa por “uma grande transformação”. Palestrantes e futuristas (seja lá o que seja isso) surfam uma onda que fala muito para dizer pouco; há, aliás, um padrão comportamental desses videntes modernos: sempre usam a palavra “narrativa”, depois vêm com “disrupção”, encerrando com algum neologismo ou expressão de impacto de uma suposta visão além do alcance. Na síntese, o bordão fica mais ou menos assim: “precisamos de uma nova narrativa de disrupção etérea”.

Ora, ninguém entende nada, mas, paradoxalmente, as pessoas saem faceiras por estarem participando de uma inovação da ignorância, tendo, em alguns casos, direito a certificado em folha de papelão.

Sim, a crítica é acida, pois não podemos mais nos contentar com retóricas vazias ou lances de rasa enganação. A vida vivida autêntica exige e quer mais de nós. Objetivamente, se participamos, com foco e seriedade, de uma dada palestra e não conseguimos entender o conteúdo da mensagem, o problema, via de regra, é o mensageiro. Por mais inteligente que alguém seja, por maior que seja sua capacidade de ver a realidade e pressupor tendências no horizonte, é dever seu desenvolver uma linguagem fácil e uma comunicação acessível, potencializando, assim, a disseminação do conhecimento por toda a pluralidade do tecido social.

Falar em público é a arte de fazer da mensagem um gesto de doação de sabedoria. Em outras palavras, trata-se da possibilidade de nos fazermos melhores, somando o que temos àquilo que as pessoas têm.

Nessa simbiose intelectiva, o conhecimento avança pelas alavancas do pensamento crítico, elaborando análises, corrigindo concepções equivocadas, aplainando sentidos e significados brutos para, ao final, lapidar o diamante do saber. 

Escrevo isso pensando também nos inúmeros professores formados com os vencidos métodos pedagógicos da era industrial. Não é de estranhar, portanto, que muitas aulas, em escolas e universidades, sejam completamente desinteressantes e incapazes de atrair a atenção dos alunos. A densidade cultural é decadente porque, sem o foco da atenção, é impossível o desenvolvimento do pensamento profundo, libertador da superficialidade da vida.

Logo, temos um enorme desafio presente de reconstruir, com empatia e persuasão, as formas de transmissão do conhecimento, fazendo dos palcos da vida uma oportunidade de aperfeiçoamento das complexas e difusas conexões humanas. Para tanto, é preciso seguir a perene lição do Padre Antonio Vieira, quando bem disse que “para ensinar é sempre necessário amar e saber, porque quem não ama não quer, quem não sabe não pode”.

A hora de amar e saber é agora. Afinal, se a imaginação projeta o futuro, o hoje o faz.

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Sebastião Ventura

Sebastião Ventura

Advogado, especialista em Direito do Estado pela Universidade Federal do Rio Grande Sul. Ver perfil completo >>

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