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Os mitos do feminismo moderno

Nunca foi tão excitante ser uma mulher como hoje em dia. Quase 20 anos no século 21 e temos poucas coisas ainda para corrigir: igualdade nos salários, mutilação genital e alguns vão argumentar a favor da descriminalização do aborto. Mas nunca foi tão fácil para uma mulher estar empoderada como nas primeiras décadas deste novo milênio.

O termo “(se) empoderar“, de acordo com a definição de dicionário moderno, vem do inglês “empower” e é usado nos textos de sociologia política com o “sentido de empoderar um grupo socioeconômico desfavorecido, de modo que, através de sua autogestão, melhoram suas condições de vida“. A palavra foi por primeira vez usada na década de 70 pelas publicações Jet e Essence, para incentivar a comunidade negra a melhorar suas condições de trabalho e estudo. Em seguida, foi popularizado nos anos 80 e 90 pelo feminismo em referência a mulheres de países emergentes em situações terríveis.

No entanto, a palavra empoderamento se perdeu numa imensidão semântica. Usada, desgastada e distorcida, acabou sendo aproveitada pela mídia, marketing e política.

No final dos anos 90 e início do novo século, a indústria do marketing, através de revistas e anúncios, faz uso da palavra empoderamento, deixa-a bonita à conveniência e vende-a. De moda em discursos, campanhas de publicidade e ditados do que uma mulher deve ser hoje, a palavra já não se referia ao ganho demográfico de poder do grupo, mas do indivíduo para si mesmo. O que em si não seria um problema, pelo contrário. Deixar de conceder poder a um grupo e concedê-lo a um indivíduo. Porque não?

No início do novo milênio, as capas das revistas motivaram às mulheres a se tornarem mais poderosas, adquirindo os mais recentes produtos de moda. Esta atitude estava muito associada ao programa de televisão “Sex and the City“. (Programa de TV que hoje reduzimos àquele que sugeria que comprar sapatos é um ato feminista.) Além das reais intenções do programa, ele simbolizava um feminismo tedioso e mercantilista, simplificado por uma frase satírica do site da OnionMulheres empoderadas por tudo que uma mulher faz” (www.theonion.com/women-nowempowered-by-everything-a-woman-does-1819566746), que explica o absurdo desse pensamento.

Os agentes publicitários se apropriaram de um termo que sugere bravura, mas na realidade o que eles prometem é uma identidade feminina aspirante.

Empoderamento é agora algo que as mulheres podem comprar, enquanto as condições que determinam quem tem acesso e acumulá-lo permanecem as mesmas. Programas como “Weight watchers” ou “Uma questão de peso” não vendem perda de peso, mas sim que você vai se amar se perder peso.

A moda de acumular sapatos como uma forma de poder foi perdendo poder antes do final da primeira década do novo milênio, mas deixou uma marca forte na nova mentalidade emergente. Uma nova forma de feminismo, de fortalecimento feminino, que ataca qualquer mulher que julgue outra mulher por escolher fazer ou ter qualquer coisa. Porque essas mulheres escolheram o que escolheram, portanto, realizaram um ato feminista. Em suma, a palavra “empowerment” recuperou momentum e as mulheres que vivem de acordo com suas próprias escolhas e desejos são descritas como auto-empoderadas. O feminismo de escolha substitui ao consumidor, mas ambos são reduzidos à mesma coisa: se uma mulher faz alguma coisa, seja dançar ou comprar sapatos, é um ato feminista de empoderamento.

Você, mulher, vai me discutir e argumentar que isso é algo positivo, certo? Incentivar uma à outra é bom, não é? Aprendemos com nossas mães e avós que julgar umas às outras sobre nossa sexualidade ou ações, não é positivo. Hoje em dia, uma mulher que julgue outra mulher é considerado um ato pior do que a misoginia.

A realidade é que essa abordagem nos leva a muito pouco. Sugerir que uma mulher deva sempre comemorar qualquer coisa que outra mulher faça, por algum tipo de irmandade de gênero, é tão vazia quanto a ideia de que uma mulher não deveria se sentir confortável por ter opinião.

O empoderamento tornou-se uma cobertura para fazer o que você quer. Mas, é um espaço fictício criado para se sentir seguro: sempre que você diga que está empoderada, quem reclame ou critique estará tentando oprimi-la.

Mas a coisa mais irônica sobre empoderamento não é sua falta de senso ou desempoderamento, mas sim como ele foi endereçado e vendido para aquelas mulheres que menos precisam. Mulheres como eu, na faixa dos 30 ou 40 anos, com formação intelectual, empreendedora ou com um bom salário. Somos inundadas de publicidades e Ted Talks, liberação sexual e selfies semi-nuas. O empoderamento não só se tornou sinônimo de narcisismo auto-indulgente, mas também como um símbolo de criação e manipulação de políticas de identidade de acordo com a necessidade do momento.

Podemos discutir um bom tempo com as feministas modernas que defendem qualquer escolha de ação como poder. Mas a realidade é a seguinte: enquanto a capacidade de escolher é em si um ato que fortalece, isso não significa que o ato escolhido ou o produto escolhido, seja. Carrie Bradshaw, o ícone do auto-empoderamento, explica: faça o que quiser, mas não minta para si mesma que está fazendo mais do que se dar um gosto.

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Cris Ljungmann

Cris Ljungmann

Cris é uma apaixonada pelo ser humano, com formação em Antropologia Social e uma forte ênfase nas áreas cultural e social. Incansável viajera pelo mundo, combina seus mais de 15 anos de experiência no ensino desenvolvimento humano, a uma fervente paixão pelo esporte aventura, meditação, arte e vida saudável. Ver perfil completo >>

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