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Procuro informações sobre meditação no Google, da mesma forma que procurei nas páginas amarelas de Bogotá há 20 anos. Não é a tecnologia que faz a diferença na minha pesquisa, mas a imensa quantidade de resultados obtidos hoje.

Yuval Noah Harari em seu último livro “21 lições para o século 21” nos alerta para a importância de investir para cada dólar e cada minuto em tecnologia, a mesma quantidade no desenvolvimento da consciência humana. E vai além, alertando também para os riscos de não investir no desenvolvimento da compaixão ou de compreender as causas do sofrimento.

Conceitos como compaixão, sofrimento e consciência bem podem ser enquadrados em práticas filosóficas ou religiosas. Por outro lado, sem entrar no mérito religioso, podemos simplesmente colocar “meditação”, “mindfulness”, “mente plena” ou algo semelhante no Google, e aparecerão resultados em formatos de apps, cursos para todos os gostos, locais e tipos de negócios. Também teremos acesso a variados tipos de elementos, como música, roupas, estátuas de Buda, incenso, para tornar a nossa prática muito produtiva.

Definitivamente parece ser o caminho da felicidade. Como em tudo, se esse ou aquele curso for mais caro ou exclusivo, certamente os resultados serão mais eficientes. Mais rápidos, mais profundos e mais duradouros.

Como praticante regular de meditação há mais de duas décadas, essa moda súbita gerou algumas dúvidas e questionamentos em mim.

Mais uma vez, procurei ajuda no Google e perguntei o que há de errado com a meditação. E sem me decepcionar, um Google com os algoritmos aguçados ao meu desejo, me proporcionou uma lista interminável de reações indesejáveis e adversas da meditação da atenção plena, ou Vipassana em sânscrito, Lhatong em tibetano ou mindfulness para o mainstream.

Despersonalização (se enxergar em terceira pessoa), depressão e ansiedade, estão entre os efeitos indesejados em pessoas vulneráveis, diz o psiquiatra Dr. Florian Ruths do Hospital Maudsley no sul de Londres.

https:// www.theguardian.com/society/2014/aug/25/mental-health-meditation

O fato de ter efeitos adversos me entristece, mas não me surpreende.

O motivo da minha busca por informações sobre meditação 20 anos atrás, era dar continuidade à meditação Shiné, ou calma mental em tibetano, também chamada Samatha em sânscrito. No início desta busca, já havia vários alertas e explicações sobre a importância de acalmar a mente primeiro, muito antes de colocá-la em alerta para a atenção plena. Quero dizer, muito antes de colocá-la no mindfulness.

Vou além. Pagar um curso, comprar um produto, baixar um aplicativo, gera a expectativa imediata do resultado. Imediatismo. Hoje em dia não temos tempo nem paciência para esperar anos para ver um resultado. Não entendo que isto seja um risco para a saúde mental, mas meditação está, muito provavelmente, se tornando um elemento de encorajamento para a atual alienação social.

Acreditamos que estamos atingindo uma meta de alerta mental, quando, na realidade, estamos nos distanciando cada vez mais da calma mental à que Harari se refere.

Na minha opinião, não há cura, nenhum curso in company, nenhum app, nem nenhum método que garanta atenção total, se não colocamos nossa mente longe da poluição dos pensamentos que distraem nosso foco. Definitivamente, não é com tecnologia ou cursos com resultados pré-datados que você alcançará essa calma e foco.

É preciso uma pausa para pensar e uma vida para obter resultados. A paciência contra a qual o imediatismo luta.

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Cris Ljungmann

Cris Ljungmann

Cris é uma apaixonada pelo ser humano, com formação em Antropologia Social e uma forte ênfase nas áreas cultural e social. Incansável viajera pelo mundo, combina seus mais de 15 anos de experiência no ensino desenvolvimento humano, a uma fervente paixão pelo esporte aventura, meditação, arte e vida saudável. Ver perfil completo >>

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