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Quando quero escrever um assunto para compartilhar com as pessoas, deixo trabalhando e elaborando dentro de mim. Ele fica no meu campo de atenção, de forma focalizada, e assim, quase de maneira automática, dedico esforço e energia intelectual para o alvo escolhido, mesmo que aparentemente esteja em segundo plano, e elimino tudo aquilo que não diz respeito ao meu desejo de comunicar o que está efervescente em mim. Exatamente o que aconteceu para escrever esse artigo que você está lendo agora também ocorre com o foco de atenção que você dá aos milhares de estímulos internos e externos que recebe a todo momento.

O trabalho que desenvolvo com tantos mentorados, em sua maioria executivos e profissionais de grande competência, trouxe a ideia de abordar um tema que tratasse sobre a necessidade de desenvolvermos um estilo de vida e de atenção que nos permitisse intercalar o trabalho fragmentado e o trabalho focado ou profundo. Muitos deles, quando chegam até mim, estão quase em estado de exaustão física, intelectual e existencial, consumidos por emoções internas não nominadas e monopolizados por necessidades externas.

As organizações e a vida corriqueira nos chamam a uma forma de ação difusa: o entra e sai interminável de reuniões, assuntos diversos, problemas inesperados, família, redes sociais, redes sociais, redes sociais (expressão propositadamente repetida).

Quando sobra tempo as pessoas olham para si, seus objetivos, valores, sentido, sonhos, relacionamentos, questões laborais, carreira profissional e dimensão pessoal que gostariam de observar por outro ângulo ou elaborar novas perguntas e encontrar respostas. Tudo isso está contemplado no processo de autoconhecimento que, inevitavelmente, demanda o trabalho focado.

Como mencionei, estava trabalhando internamente com a questão do trabalho focado e fragmentado no meu campo de atenção. Repentinamente, me deparei com um estímulo externo, lendo uma notícia do Multiverso da Meta (o novo nome do Facebook). O que isso tem a ver com o assunto? Tudo!

Se você é gamer ou convive com gamers, assiste filmes e séries como Black Mirror, Dr Estranho, Homem Aranha, Loki, Atlantis, O Homem do Castelo Alto, Matrix, Star Trek entre outros, o multiverso não é um tema novo. O SXSW, um dos maiores eventos nos EUA, que converge as indústrias da música, tecnologia e filmes, abordou amplamente o Multiverso na sua edição de 2021.

Presenciei uma experiência de intensidade neurossensorial elevada através do Multiverso. Explico: em abril de 2020, uma grande plataforma de games, promoveu um show imersivo e interativo denominado “astronomical concert event” com o rapper Travis Scott em meio a um ambiente de incertezas, confinamentos e ansiedades da pandemia.  Acompanhei o evento com e através dos meus enteados, que são gamers. Eles e seus amigos estavam virtualmente conectados e inteiramente cooptados. A emoção que sentiam em terem suas skins (de maneira simplista são os personagens que os jogadores escolhem para se representarem em batalhas) interagindo com o artista era a mesma de alguém que tinha conversado com ídolo ao vivo e em cores. Me remeteu à emoção que eu vivia quando conseguia estar muito próxima e até conhecer pessoalmente um artista ou banda de rock prediletos.

No show da plataforma de games os participantes tinham consciência de que não estavam fisicamente presentes, mas a intensidade das sensações vividas foi real.

Naquele momento fiquei reflexiva com a experiência, tecnologia e efeitos na vida dos jovens, pensando no futuro da educação e das interações, e o quanto a tecnologia do multiverso tem a capacidade de “simular” realidades que tem potencial de alterar a visão e percepção de mundo das pessoas. Com isso, a urgência de alguns pontos fez-se ainda maior para todas as pessoas:

  1. Saber conhecer e dar nome as suas emoções;
  2. Conhecimento dos valores pessoais e construção de relações saudáveis que extrapolem as plataformas;
  3. Desenvolvimento da empatia para aceitação e acolhimento das diferenças;
  4. Aprender a conviver com momentos de tédio;
  5. Encontrar o sentido no que é vivido e experienciado cotidianamente.

Poderia acrescentar tantos outros pontos, mas “apenas” esses possibilitam uma boa grandeza do quanto a profundidade é necessária para que cada indivíduo construa o seu universo particular, independente de quantos multiversos externos sejam calculadamente construídos por uma inteligência artificial, empresa, instituição, estado etc.

Toda tecnologia disruptiva aplicada a realidade traz novas formas de se relacionar, consumir, vender, comprar, e até desejar e pensar, e isso tudo provoca transformações positivas e negativas nos indivíduos e na sociedade. O ponto não é banir ou sucumbir diante da tecnologia, mas é saber como viver e ter domínio da sua vida.

O anúncio de Mark Zuckerberg, sobre a Meta (metaverso), me fez lembrar de algumas interações que tive no período de 2009 a 2011 com profissionais de tecnologia. Reencontrei um colega dos idos tempos da faculdade de ciências da computação através do Facebook, porém a interação pela rede social não foi o suficiente. Ele me convidou a participar de um encontro informal com os sócios e time da empresa de tecnologia dele. Conversamos sobre sentido da vida, computação, física quântica, realidade virtual e aumentada, psicologia, filosofia, quando a conversa desagua no impacto das imagens e do inconsciente.

Aqueles encontros presenciais foram tão vibrantes que passamos a aumentar frequência para aprofundar os temas. O interessante naquele time, é que o trabalho focado decorria de forma praticamente orgânica. Por vezes, após nossos bate-papos voltava-se para a empresa para dar materialidade aos insights da nossa dialética.

Em 2011 um dos assuntos que foi trazido às conversas pelos sócios da empresa de tecnologia foi a criação de uma plataforma com recursos de tecnologias imersivas, onde as pessoas poderiam ter uma extrapolação da sua vida cotidiana. Me recordo que o propósito nobre, e porque não pueril, que estava associado a essa visão era de que no meio de uma grande massa de pessoas que vivia autonomamente, ter um espaço, mesmo que virtual, onde elas pudessem vivenciar emoções mais profundas, poderia trazer alguns momentos de sentido para a vida dessas pessoas.

Confesso que fiquei sem dormir aquela noite, pensando no quanto as pessoas iriam transferir à tecnologia o poder de decisão e conhecimento das suas vidas.

A minha vida seguiu, a deles também, a empresa foi para o Vale do Silício, continuamos em contato.  Pivotaram o negócio em 2015/16 e um dos sócios me relatou que depois de levarem tantos “nãos”, o projeto foi contratado para ser desenvolvido na indústria de games. Fiquei muito feliz por eles, e ao mesmo tempo, a minha profunda visão humanística, ficou novamente apreensiva. Anos depois, conforme relatei acima, presenciei o resultado disso tudo em ação.

Pois bem, e o trabalho profundo? Sabe como essas descobertas emergiram com esses ou tantos outros criadores? Posso afirmar que não foi do trabalho fragmentado. Eles tinham, e ainda tem, espaços nas agendas onde se concentram profundamente, sem interrupção de nenhuma tecnologia, além das ferramentas necessárias para o trabalho, e nesses momentos procuram se desafiar ao limite da sua capacidade mental. O momento do foco sempre foi inegociável, e posso dizer que produziam em horas o que muitas pessoas levavam anos. Literalmente se colocavam em uma atitude de atenção e presença consigo e com o objetivo que tinham, e isso possibilitava que entrassem em flow. Esse posicionamento disciplinado fazia com que os “músculos da mente” fossem exercitados com intensidade, os fazendo criar gatilhos de persistência quando a força de vontade acabava, superando as resistências quando elas apareciam, e, sendo resilientes aos incontáveis “nãos” que tiveram.

Você pode argumentar que para pessoas “acima da média” é mais fácil.

Mas eu lhe peço para refletir que essas pessoas na sua origem são como eu e você em todos os sentidos – tem família, conflitos internos, inseguranças, traumas, vulnerabilidades, contas para pagar, necessidades fisiológicas como qualquer ser humano.

O que os diferenciam de nós? Justamente porque elegeram prioridades e mesmo com todas as tentações e assédios de informações que sofreram, focaram a sua atenção, posicionaram-se com uma atitude de aprendizado diante das situações, desenvolveram uma disciplina de calibragem das suas emoções e estabeleceram relações humanas efetivas. Por esse conjunto de razões é que fizeram o “impossível” acontecer.

Faço a reflexão para que você não tenha medo de mergulhar, cultivar valores, construir relacionamentos reais, construir novas histórias e inserir o trabalho focado em todos os aspectos da sua vida. Em síntese, crie um universo que permita a interação entre tantos multiversos, assim eles não irão seduzir a sua atenção e você poderá ainda fazer da sua existência um belo caminho de aprendizado, e quem sabe, transformar a vida de tantas outras pessoas.

Quer se aprofundar sobre o tema? Os filmes e séries que mencionei acima estão disponíveis nas principais plataformas de streaming. Deixo também algumas sugestões de leitura:

– Trabalho focado – aplicando o deep work no trabalho e na vida – Cal Newport

– Foco – A atenção e seu papel fundamental para o sucesso – Daniel Goleman

– Como Superar Seus Limites Internos – Aprenda a vencer seus bloqueios e suas batalhas interiores de criatividade – Steven Pressfield

Originais – Como inconformistas mudam o mundo – Adam Grant

Foque, seja profundo e fique consigo!

Os autores dos artigos, vídeos e podcasts assumem inteira responsabilidade pelo conteúdo de sua autoria. A opinião destes não necessariamente expressa a linha editorial e a visão do Instituto Dynamic Mindset.

 Comentários
  • César Leite disse:

    Maravilhosa como sempre Leandra
    Parabéns

  • Adriano Amui disse:

    Super artigo Leandra!

  • Marcos Nunes disse:

    Que artigo maravilhoso!
    Obrigado Leandra, por nos provocar de maneira tão prazerosa.

  • José Luís Marasco Cavalheiro Leite disse:

    Muito instigante.

  • Antonio Carlos Canova disse:

    Adorei este artigo! Inspirador! Mostra-nos que, mundo real ou virtual, preferencialmente se vive melhor quando os seres humanos estão fundamentados em bons valores e boa educação! Obrigado!

  • RICARDO SNAP NOGUEIRA disse:

    Showww Leandra, um MARAVILHOSO apanhado de teoria com experiência, digno de inspirar inúmeras transformações pessoais.

  • Paulo Peres disse:

    Super parabéns e obrigado por nos conduzir por esta fantástica imersão sobre tuas palavras .

  • Ana Cristina Mairesse disse:

    Leandra artigo maravilhoso! União de assuntos e casos atualíssimos e que surgem para moldar nosso futuro, e mantendo sempre o foco e atenção no humano, que é quem faz realmente tudo acontecer!!!!!! Big beijo em você, minha musa inspiradora 🙂

  • Marcelo Luis Costa disse:

    Excelente leitura, instiga a reflexão! Obrigado!

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Leandra Zamboni

Leandra Zamboni

Psicóloga, empresária, mentora de líderes com foco no desenvolvimento dos potenciais humano, profissional com mais de 25 anos de mercado, cujo propósito é trabalhar com pessoas para que se tornem protagonistas de sua própria existência, inovem nas suas ações e transformem o meio em que vivem. Minhas premissas de atuação são: Pessoas como base e foco, tecnologia como meio, crescimento integral, sistêmico e sustentável como visão. A experiência de ser empreendedora, consultora e executiva em organizações de tecnologia e de desenvolvimento humano, me proporcionaram a expertise em temas como: Inteligência emocional, empresas orientadas à valores, liderança integral, mentoria executiva e de business, mentalidade antifrágil, aprendizagem e transformação sistêmica e existencial. Co-fundadora da Esplendor - Plataforma de desenvolvimento humano e organizacional; articulista no Dynamic Mindset. Especialização em Gestão de Negócios (FDC), Especialização em Gestão da Informação e Documentação (UFSC), Especialização em Psicologia da Liderança (UESP – São Petersburgo/Rússia), Psicóloga (UFSC). Alguns cursos e formações: Ulab: Leading From the Emerging Future (MITx); Triple International Certification in Mentoring (Global Mentoring Group), CTT Certified Consultant (Barrett Values Centre), Formação em Logoterapia (Instituto de Psicologia e Logoterapia), Neurociência Aplicada ao Coaching , Consciência Sistêmica, Psicossomática e Analise fisiognomica e corporal, Coaching Professional

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