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Os cidadãos também terão que fazer sua parte de fiscalizarem e participarem ativamente dos assuntos públicos do Brasil

Sim, estamos a viver tempos difíceis. As insuficiências da política geram progressivas insatisfações com a democracia. O voto elege, mas não garante o bom governo. As reivindicações sociais são múltiplas, instantâneas e frenéticas, mas a capacidade de entrega é pontual, lerda e limitada.

No hiato do possível, os regimes democráticos se apartam da realidade, ficando alheios aos velozes fluxos da era tecnológica.

A hora é crítica: ou sistema muda ou a ruína será inevitável.

Na verdade, diante do colapso da política tradicional, há uma importante transição nos jogos do poder mundial. Nem tudo será diferente, mas muito destoará do que já foi. Nosso desafio imediato é fazer do Brasil um país melhor. Longe de ser perfeito, mas necessariamente melhor. Para tanto, teremos que fazer mais, sermos eticamente mais altos e impormos propósitos mais dignos à ação política concreta.

Ora, a inteligência superior de Charles Wright Mills, em obra sociológica clássica, bem apontou que os políticos não passam de empregados do poder.

Sabidamente, quem manda não precisa da vitrine, mas banca a festa e vive com seu glamour. A questão é que as cambiantes relações de poder não duram para sempre. De tempos em tempos, algumas posições são substituídas por força da evolução ou simples involução.

Entre idas e vindas, quem fica parado perde espaço, enquanto os que ficam caro demais são trocados por opções mais baratas.

Nesse contexto dinâmico, a festejada Operação Lava-Jato não nasceu por acaso; houve um intenção deliberada de mudar a ordem dos acontecimentos no Brasil. A corrupção estava fora de controle. Objetivamente, o preço da desonestidade pública ficou totalmente antieconômico. A ganância dos políticos estava comprometendo o lucro dos corruptores. Em termos de troca, a corrupção ficou onerosa demais, forçando um barateamento dos custos de transação.

Adicionalmente, a engrenagem corruptiva, por sua obesidade estrutural, perdeu agilidade de movimento nas sombras, abrindo muitos flancos de vulnerabilidade. Ou seja, o corruptor começou a ficar com medo de ser pego na botija, refreando o financiamento ilícito da política. Aos poucos, o sistema delitivo começou a bater cabeça, deixando peças expostas à ação sancionatória do Estado que, através do magistral trabalho criminal da 13ª vara federal de Curitiba, implodiu com parte do núcleo delitivo.

E agora?

Bem, estamos diante de um novo jogo sem um enredo de poder definido. Isso significa que podemos estar entrando num ciclo altamente virtuoso ao Brasil.

Todavia, a linha de equilíbrio é tênue e sinuosa. Logo, a cautela há de ser redobrada, pois um simples erro pode provocar uma queda em efeito dominó. Especificamente, algumas peças estratégicas da política mudaram, mas pecam pela falta de experiência no delicado trato das questões de poder. Além disso, a substantiva renovação parlamentar e a consequente fragmentação das bancadas no Congresso indicam que o nível de negociação será denso, exigindo uma especial capacidade de composição de interesses.

Os riscos, portanto, são reais e inevitáveis. Viver, aliás, é fazer do risco a oportunidade do crescimento. Na rota do progresso, os políticos são apenas políticos. Assim, resta saber se teremos, de um lado, homens de Estado autênticos e, do outro, capitalistas íntegros e, não, meros mercadores de propina.

Os cidadãos também terão que fazer sua parte de fiscalizarem e participarem ativamente dos assuntos públicos do Brasil.

Do contrário, por mais que o futuro mude, seguiremos a ser menos do que realmente somos.

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Sebastião Ventura

Sebastião Ventura

Advogado, especialista em Direito do Estado pela Universidade Federal do Rio Grande Sul. Ver perfil completo >>

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