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Talvez você não goste de ficção científica, ou não seja seu gênero predileto, mas pensando no ambiente complexo e cheio de regulações legais e morais que vivemos, deveria cogitar, pelo menos de vez em quando, assistir para conhecer ou até para se deparar com antecipações tecnológicas, para entender a formação de novas lógicas sociais, de relacionamentos, de diversidade (incluindo autômatos) e principalmente em como as construções da verdade acontecem. Não é à toa que Yuval N. Harari no seu livro 21 lições para o século 21 cita que: “No sec XXI talvez o gênero artístico mais importante seja a ficção científica” (pag. 304).

Sou fã de Star Trek, e há tempos quando assisti o episódio 6 – Ao Som do trovão, da segunda temporada de Start Trek Discovery, fiquei surpresa pela forma direta com que uma ficção científica expunha a construção de uma verdade ou pós-verdade. De forma muito sintética, porque recomendo a todos assistirem pelos motivos acima expostos, o episódio relata como os kelpianos acreditaram por séculos que eram fracos, submissos e foram criados sob a égide do medo, se protegendo dos seus predadores Ba´uls que usavam a tecnologia como instrumento de domínio e forma de ocultar as suas fraquezas, principalmente através do “olho que tudo vê”. Troque kelpianos por humanos, você vê alguma semelhança com o que vivemos hoje?

Retornando ao episódio, bastou Saru, kelpiano e um dos comandantes da Star Trek, passar pelo seu próprio renascimento (Vahar´ai), reencontrar sua terra e de forma muito honesta a sua família, para que toda a verdade estabelecida há séculos fosse questionada e recontada.

Fomos criados, acreditamos, vivemos e replicamos versões da história que foram sustentadas em nome da defesa de um bem maior de uma nação, justiça, religião, economia, da preservação da nossa neuroanatomia e principalmente da nossa própria família.

No livro Mapas do Significado – A Arquitetura da Crença, Jordan B. Peterson relata que: “quando estamos no domínio do conhecido, por assim dizer, não há motivo para medo. Fora desse domínio, reina o pânico. É por esse motivo que não gostamos de ver nossos planos interrompidos e nos agarramos ao que entendemos. Mas essa estratégia conservadora nem sempre funciona porque o que entendemos sobre o presente não é necessariamente suficiente para lidar com o futuro. Isso significa que temos que ser capazes de modificar o que entendemos mesmo que para isso estejamos arriscando nossa própria destruição. Obviamente, o truque é modificar e ainda permanecer seguro. Isso não é tão simples. Modificação demais cria o caos. Modificação de menos cria a estagnação (e então, quando o futuro para o qual não estamos preparados aparecer – caos).

Exposição involuntária ao caos significa encontro acidental com as forças que minam o mundo conhecido. As consequências afetivas desse encontro podem ser literalmente esmagadoras. É por esse motivo que os indivíduos são altamente motivados a evitar manifestações repentinas do desconhecido. E é por isso que os indivíduos farão quase qualquer coisa para garantir que suas “histórias” culturais protetoras permaneçam intactas” (pag. 49)

Agimos em grande parte do nosso tempo disseminando: verdades que acreditamos, nossos vieses conscientes e inconscientes e querendo ser como quem é nosso ideal, mas não como quem nós somos de fato, até porque se conhecer é um trabalho constante, contínuo e doído. De certa forma, é compreensível agir da forma que agimos, pois queremos sobreviver neste mundo. Tarefa que é cada vez mais desafiadora.

O ponto que a realidade atual nos constrange é o de que não nos é mais permitido não questionar os fatos e informações que chegam até nós ou, analisar de que forma os buscamos. E principalmente não se pode mais viver a própria vida de maneira superficial, sem questionar as nossas crenças, consumindo e tendo a nossa existência consumida. Aumentar a nossa consciência, e ter um mindset dinâmico, é um dever de quem quer fazer deste mundo e da sua própria vida um lugar melhor.

Não posso concluir sem deixar de citar o “amigo” Saru de Star Trek: “todos viemos de um lugar. Carregamos este lugar para onde quer que vamos. Isto nunca deixa o nosso coração, não totalmente. Mas nenhum de nós pode prever onde a nossa viagem irá terminar. Nós podemos sofrer perdas pelo caminho, mas esperamos crescer e aprender com tais experiências e com quem nos acompanha nesta jornada. (…) aguentar algo que ninguém aguentou pode ser transformador. Talvez ao se sentir menos como você era, você fica mais parecido com quem deveria se tornar. O que é um kelpiano sem o medo, estou perdendo justamente o que me define. Estou às cegas, porém não consigo evitar sentir que em algum lugar no desconhecido há um sentido. E que estamos sendo guiados até ele”.

Renascer para a própria verdade é um processo doloroso, mas libertador. Uma pessoa que muda, pode mudar a história de muitos e até de um povo.

Sugestões de leitura e fontes do artigo:

Yuval N. Harari, 21 Lições para o século 21. Companhia das Letras Ed, 2018

Jordan B. Peterson, Mapas do significado – A arquitetura da crença. É realizações Ed, 2018

Créditos da imagem que ilustra este artigo: Star Trek: Discovery Season 1, Episode 9

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Leandra Zamboni

Leandra Zamboni

Profissional com mais de 20 anos de mercado, Diretora de Administração e Pessoas na Processor, fundadora da Solleone Gestão Inteligente da Informação e Consultora de Desenvolvimento Organizacional. Ver perfil completo >>

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 Comentários
  • Alexandre Claudino Barbosa disse:

    Adorei o artigo. Intrigante e gostoso de ler. Toca no que se tornou um clichê, mas que não deveria ser, que é de a FC antecipar o futuro que vivemos e que deveria ser desmistificando, visto por um outro olhar, mais rico e revelador.

  • Deomedes Roque Talini disse:

    Parabéns Leandra! Excelentes reflexões. Abs.

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