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Tenho observado o mercado de Cannabis há algum tempo, e tem me chamado a atenção a forma com que a economia, aliada estratégias psicológicas e legais, vai construindo evidências e costuras para se tornar uma verdade, dando inicialmente espaço para questionamentos, para depois ser aceita e seguida… e quando voltar a ser questionada, muito dinheiro circulou e a história aconteceu.

Nos últimos meses conversei, informalmente, com pais de crianças com epilepsia (graves e sem sucesso em tratamento terapêutico convencional adequado), que relataram o quanto o uso, ainda que recente, de medicamentos à base de maconha medicinal (canabidiol – CBD) melhorou a qualidade de vida dos seus filhos. Conversei com profissionais de tecnologia, que estão trabalhando em locais, fora do Brasil, onde o uso da maconha medicinal ou para fins recreativos é permitido, que me reportaram fazer uso da erva ou doces com maconha para amenizar cansaço mental, alívio das dores nas articulações, principalmente punhos e nas costas, decorrentes das várias horas de atividades ininterruptas.

Por sinal, o mundo corporativo está repleto de histórias ligadas ao uso de entorpecentes, entre eles a maconha, com a justificativa do uso como um atalho para acessar a criatividade e gerar negócios “fora da caixa”. A mais noticiada recentemente foi a de Adam Neumann, agora ex-CEO da WeWork, que tem a sua personalidade excêntrica ligada ao consumo de maconha e álcool, onde vimos seu negócio avaliado em bilhões praticamente transformar-se em fumaça em poucas semanas.

Entrevistei profissionais de inteligência ligados a polícia federal para entender o perfil dos consumidores e as estratégias que possibilitaram apreensões recordes de drogas no Brasil. Estes comentaram sobre a importância do uso da tecnologia e redes sociais nas apreensões efetuadas, e relataram das alterações encontradas na composição das drogas, em especial na maconha, com alto índice de THC (Tetrahidrocanabinol – que é parte responsável pelos efeitos psicoativos e neurotóxicos da substância), fazendo que a maconha atual seja muito mais nociva e tenha pouco em comum com a das décadas de 70/80. Outro fato alarmante é que esta droga tem grande parte da sua destinação para jovens usuários de 19 a 24 anos de todas as classes sociais. Informação sensível quando se trata da força econômica e criativa do nosso país.

Médicos, neurocientistas e entidades de medicina relatam sobre as potencialidades terapêuticas do Canabidiol (CBD) para doenças ligadas principalmente a problemas neurológicos. Porém, reforçam que ao fumar a maconha, os efeitos benéficos do CBD não compensam em sua integralidade os efeitos maléficos do THC, que como citamos anteriormente, está presente em altas doses na maconha comercializada atualmente. Além disto o usuário está sob o risco de quadros psicóticos, diminuição de volumetria de áreas cerebrais responsáveis pela memória e outros tipos de prejuízos cognitivos. Ou seja, para se ter o efeito do CBD é necessário o separá-lo do THC, o que não é possível ao se fumar um cigarro de maconha.

O mesmo vale para os consumidores de Vape (e-cigs ou cigarro eletrônico) onde a indústria literalmente criou novas linguagens de marketing e aliciamento psicológico, semelhante ao que criou com o cigarro, na década de 80, em uma geração (13 a 21 anos principalmente), que foi educada sabendo dos problemas e risco do cigarro, e que supostamente teria consciência e ausência de necessidade de consumir produtos à base de nicotina. Porém, o consumo de e-cigararettes simplesmente viralizou entre os jovens americanos, que acreditam que: 1) o vaping é menos prejudicial do que fumar; 2) os cigarros eletrônicos tem um custo por uso menor do que os cigarros tradicionais; 3) os cartuchos de vape são frequentemente formulados com aromas como torta de maça e melancia que atraem usuários mais jovens; 4) jovens e adultos são seduzidos pela falta de fumaça e ausência de cheiro. Todas estas estratégias transformaram o estigma do fumo, e mesmo assim, introduzem um produto que contém nicotina, aromas doces e, pasme, até THC, que causam dependência e agem diretamente nos alvéolos pulmonares mostrando-se muito mais letal que o velho cigarro.

Paralelo a isto observando o potencial de mercado, os investimentos na maconha medicinal e de uso recreativo legal, as projeções sobre o futuro da indústria da cannabis, me levaram a crer que os analistas tendem a ser “consumidores do produto”, pois existem previsões de que o mercado atinja de US$ 500 bilhões a US$1 trilhão, em menos de 5 anos.

Além do crescimento das ações e do mercado da cannabis medicinal nos últimos anos, grandes empresas do segmento, montaram verdadeiras estratégias de penetração e disseminação por diversos públicos e países dos seus produtos. Como a Canopy Growth Corp. (do Canadá) que anunciou em 2018 a parceria com Martha Stewart (conhecida apresentadora de TV norte americana) para desenvolver produtos como: cosméticos, cuidados com o corpo e até para animais, tudo isto reforçando as boas qualidades do CBD e fazendo com que os produtos à base de maconha passem a ser presentes em respeitáveis lares americanos.

E, se observarmos, os investimentos que grandes empresas de Cannabis vem recebendo, como a Canopy Growth, Cronos ou Tilray, veremos a forte presença de nomes como Altria (segmento tabagista = Philip Morris), ABInBev (Segmento de bebidas = Budweiser entre outras marcas e nossa velha conhecida no Brasil), Coca Cola e até nomes como Spinnaker Opportunities, investidora no mercado de energia e indústria. Empresas globais acreditando e impulsionando o potencial do mercado.

Grandes empresas de Cannabis estão sediadas no Canadá, país onde o uso da maconha medicinal foi liberado há 17 anos e em 2018 o uso recreativo alcançou o status legal. Porém as artilharias destas companhias, inclusive financeiras, estão voltadas para o enorme mercado americano que em 2018, através da sua lei agrícola conhecida como Farm Bill, legalizou a plantação do cânhamo industrial.

Segundo a Cannabis Business Executive a venda de produtos à base do CBD movimentou nos EUA US$ 1,9 bilhão em 2018 e deve crescer para US$ 20 bilhões até 2024, inclusos nestes cálculos os impactos de imagem (exemplo do Vaping) e possíveis proibições de outros produtos à base de CBD. Recente pesquisa da Gallup relatou que atualmente 14% dos americanos usam produtos à base de CBD.

Mas não é só nos EUA que a artilharia verde está à todo vapor. Na Inglaterra a liberação medicinal aconteceu em 2018 e os investidores estão com muita energia no país e em toda Europa, que é vista como um mercado que pode, e deve, exceder a América do Norte em termos de demanda, e que segundo o presidente da Spinnaker, Andy Morrison, cannabis é uma indústria que pode rivalizar com o tabaco e álcool em termos de impacto no mundo.

Atualmente existem cerca de 48 países com legalização da Cannabis medicinal e a produção mundial legalizada não consegue suprir o próprio mercado, segundo palavras Alexandra Chong, da Diretora Executiva da Jacana (empresa da Jamaica que produz cannabis medicinal).

“A economia de mercado é mais eficiente na seleção natural dos indivíduos do que a política ou a natureza.” Ludwig von Mises

Exatamente no momento que grande parte da humanidade está cada vez mais conectada tecnologicamente e desconectada existencialmente a indústria cria estratégias sofisticadas que atuam nas bases elementares de qualquer ser humano: busca de satisfação fisiológica, sensação de segurança e de alguma forma sentido de pertencimento para enfrentar os tempos de incertezas que vivemos, e com isto criar tantos outros efeitos colaterais e dependências que gerarão novos mercados para que outros fármacos possam resolver.

Temos novas gerações sendo expostas ao “olho que tudo vê” (veja o artigo Star Treck e a construção da verdade) não só pela tecnologia, mas também na forma de controle de comportamento.

A frase do Nobel de economia Daniel Kahneman parece muito apropriada para este cenário: o mercado não fica de mau humor.

Como pessoas dotadas de vontade, responsabilidade humana e social, temos que nos questionar se estamos nos permitindo ver as várias faces dos jogos que são estabelecidas diariamente e que vamos aceitando e replicando.

Precisamos nos questionar interiormente, com verdade e sem medos, se estamos dispostos a pagar o preço de nos conhecermos com humildade, enfrentando nossas dores e sombras, sem a necessidade do uso entorpecentes químicos ou emocionais, nos preocupando em como mudar a nossa realidade e o mundo a nossa volta para não termos gerações alienadas ou perdidas.

Da próxima vez que você for consumir algo (qualquer coisa que seja: lícita ou ilícita – se for o seu caso) pense se a escolha é efetivamente sua… e se isto vai melhorar a sua existência e das pessoas ao seu redor.

Adultos doentes criam gerações doentes. Adultos saudáveis mudam a história.

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Leandra Zamboni

Leandra Zamboni

Profissional com mais de 20 anos de mercado, Diretora de Administração e Pessoas na Processor, fundadora da Solleone Gestão Inteligente da Informação e Consultora de Desenvolvimento Organizacional. Ver perfil completo >>

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