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Fui entrevistado para uma matéria do jornal Zero Hora, 1ª edição de 2022. O repórter quis conversar sobre a pesquisa que indicou a palavra ESPERANÇA como a mais presente na mente dos Brasileiros para o ano de 2022. Ao ser informado desta pesquisa, fiquei pensativo e um tanto impactado.

Lembrei, de pronto, da mitologia grega, a CAIXA DE PANDORA! Essa história foi contada pelo poeta grego Hesíodo, que viveu no século VIII a.C. De acordo com a obra, o titã Prometeu presenteou os homens com o fogo para que dominassem a natureza. Zeus, o chefe dos deuses do Olimpo, que havia proibido a entrega desse dom à humanidade, ficou furioso e arquitetou sua vingança criando Pandora.

Antes de enviar Pandora à Terra, entregou-lhe uma caixa, recomendando que ela jamais fosse aberta. Ordenou que levasse a caixa a Prometeu, em grego, “aquele que vê o futuro”. Ele não aceitou nem a caixa e nem Pandora que era belíssima. Então, levou a Epimeteu, irmão de Prometeu, em grego, “aquele que reflete tarde demais”, que tomou Pandora como esposa e também a caixa.

Pandora não suportou a curiosidade e abriu a caixa. Dentro dela os deuses haviam colocado um arsenal de desgraças para o homem, como a discórdia, a fome, a guerra e todas as doenças do corpo e da mente, mas um único dom: a esperança.

Retornando as minhas reflexões sobre a esperança como o desejo maior dos brasileiros, percebo o sentido mágico e milagroso desta palavra. Esperança advém de esperar, algo que não tem a nossa interferência ou esforço, mas sim alguma coisa proveitosa que virá pela mão de outro. Passividade pura, que tem relação com nossa cultura judaico-cristã de sermos cuidados e presenteados pela subserviência. Claro, que respeito a fé/esperança religiosa, no sentido daqueles que acreditam num Ser superior/Deus que irá salvá-los dos infortúnios da vida.

Esperança é uma palavra mágica, pois me retira do papel proativo e me direciona em direção ao Grande Cuidador, o outro. Pode ser uma relação/casamento que me fará feliz e pleno na vida; os filhos que vão reconhecer o quanto fizemos por eles e passarão a nos cuidar na velhice; a esposa que recebeu tudo o que desejava e assim não abandonará e nem trairá o marido e vice-versa; o chefe que saberá do desejo do colaborador de ser promovido; a esposa que não tem prazer sexual, mas não se queixa pois acha que desta forma o marido não se interessará por outra; o colaborador que sente-se abusado verbalmente pelos colegas ou gestor, mas prefere submeter-se esperando reconhecimento ali na frente; grande parte dos brasileiros que usam as mídias para rosnarem contra os políticos e governantes, mas não se comprometem a se mobilizarem efetivamente para mudanças, pois esperam passivamente pelas próximas eleições; as pessoas que morrem esperando tratamento médico/hospitalar, não se autorizam a acamparem na frente de prefeituras e palácios de governos. O máximo que dizem diante da morte de um ente querido, é: “foi Deus quem quis assim”; o empresário que enriqueceu, mas não é capaz de oferecer um pouco mais aos seus funcionários, como um plano de saúde adequado ou melhor salário; o médico que atende mal seu paciente por que acha que o plano de saúde ou o emprego estatal pagam mal, mas não larga nem um nem outro; a pessoa que não lê, não estuda, não investe intelectualmente em si, pois se acha esperta e vai dar tudo certo.

Paulo Freire usou o verbo esperançar, no livro a Pedagogia da Esperança, que faz todo sentido, pois significa ir atrás, fazer acontecer, construir caminhos, pontes etc. Nizan Guanaes escreveu sobre a desesperança como força de capaz de mudar o rumo da humanidade.

Eu sugiro extrair da língua portuguesa a palavra esperança, pois ela nos remete a séculos passados onde éramos escravizados e dependíamos dos senhores para viver, ou vivíamos graças a proteção de páracos ou outros representantes religiosos. A penitência ou indulgência poderiam nos salvar do fogo eterno. Diz o ditado: “a esperança é a última que morre”! Deveria ser a primeira a sucumbir, fugir do nosso imaginário, pois poderíamos sair desta posição carente, de ser cuidados, e de nos indignarmos com situações que a vida nos apresenta. A terceirização dos nossos problemas tem relação direta com a esperança. A dita “neurose” descrita por Freud, não deixa de ser o imaginário/inconsciente desejando recuperar afetos, amores, cuidados que não se teve suficientemente ou se imaginou não os ter. Adoecer neuroticamente é esperar a cobrança desta conta diante da vida. Em tempo, desejo alguma serenidade aos amigos em 2022, saúde física e uma boa pitada de saúde mental, pois está sempre será o tempero da vida que vamos trilhando. Tenho “esperança” que gostem muito deste artigo, para que não caia minha estima me levando a tristeza e desânimo, caldo de cultura para um quadro de neurose existencial!!

Os autores dos artigos, vídeos e podcasts assumem inteira responsabilidade pelo conteúdo de sua autoria. A opinião destes não necessariamente expressa a linha editorial e a visão do Instituto Dynamic Mindset.

 Comentários
  • cassio mattos disse:

    Esperança, lembra esperar e quem espera, vai “perder o tempo” da bola e sucumbir no jogo da vida.
    Excelente o texto, Esperançar em 2022 é mudar os rumos das eleições e não reeleger nenhum político, mesmo os que já tiveram cargos e querem voltar.

  • Antonio Carlos Canova disse:

    Em primeiro lugar, agradeço por ter lido este texto. Me fez refletir. Em segundo lugar, embora não tenha o conhecimento e a capacidade de escrita do Doutor Nélio, peço licença para discordar de quase tudo que está neste texto, ressaltando que eu entendi o que o Dr. Nelio quis explicar e valorizo seu ponto de vista. Mas prefiro me ater a um ponto, que parece estar na base de muitas análises distorcidas e até mesmo preconceituosas. Trata-se desta frase “Passividade pura, que tem relação com nossa cultura judaico-cristã de sermos cuidados e presenteados pela subserviência”. É preciso vivenciar o dia-a-dia de uma igreja cristã e os verdadeiros cristãos, aqueles que seguem a Cristo, independente de religião ou dogma, para entender que não há nada de passivo ou subserviente no cristianismo. Para não me delongar, sugiro, por exemplo, uma simples pesquisa no Google sobre as maiores instituições de caridade do Brasil (e do Mundo). Igualmente os judeus, são um exemplo de pessoas que se preocupam com o desenvolvimento da humanidade em diversas áreas, a começar pela educação e pela ciência. Ou seja, cristãos e os judeus são aqueles inconformados com a fome, com a desesperança, com as doenças e preocupados com a educação e a saúde da mente e do corpo. Partindo daí, não é possível colocar a esperança como algo a ser banido, supostamente por nos colocar em uma posição de “terceirização dos nossos problemas”. A esperança é e deve ser ativa, prática, dinâmica, positiva, inconformada. Vejo a esperança como algo que nos faz positivos, trabalhadores, inovadores, criadores, e além de tudo, “semeadores de humanidade”, amor, caridade e compaixão, pois é através da esperança que somos capazes de sermos felizes e ajudarmos outras pessoas a alcançarem a felicidade. Pessoas que muitas vezes chegam ao fundo do poço, sem esperança, deprimidos, precisam se agarrar à esperança, deles ou nossa, para erguerem a cabeça e seguirem em frente.

  • Laís disse:

    Como a esperança estava misturada com toda sorte de desgraça na caixa, é compreensível que para o ano 2022 reste mesmo a esperança. Afinal, 2021 foi duro para o brasileiro em geral. Mas é interessante mesmo pensar no papel que nos cabe, para realmente evoluir. Com certeza não é apenas esperar, mas planejar e agir.

  • César Leite disse:

    Nelio , talvez teu artigo mais instigante e provocador feito até hoje
    Mega parabéns

  • Valder Zacarkim disse:

    Estava conversando com alguns amigos na última semana sobre este tema. Inclusive, trazendo questões de mentalidade, como abundância e escassez. E concluímos naquele momento que só há esperança na escassez. Ou você tem esperança ou você faz escolhas.

    Essa conclusão vai bastante na linha do que o Nélio comentou.

    Mas, e quanto o individuo não possui escolhas? E quanto tudo que ele pode fazer é esperar pelo melhor?

    Entendendo a passividade da esperança, sempre procurei acreditar em vez de esperar. Mas e quando não há mais energia?

    Talvez nós Brasileiros, apenas tenhamos nos apossado da esperança no momento errado da vida.

    Grande Abraço!

  • Lisandro Silva disse:

    Excelente artigo, Nelio! Traz a tona a discussão sobre a passividade das pessoas frente às suas vidas. “Esperando” que algo ou alguém traga uma solução sempre! Veja pelos comentários que a discussão é ampla e nem sempre imparcial!

    Parabéns!

  • Fernanda disse:

    Gostei muito Dr Parabéns 👏🏾👏🏾👏🏾

  • Cassio Castellarin disse:

    Excelente texto. Como sempre oportuno. Mostra que a humanidade não muda a milhares de anos,e ainda tem esperanças.

  • Nélio Tombini disse:

    Desejo de interagir com pessoas que comentaram

  • Nélio Tombini disse:

    Quero agradecer a todos que tiveram à fineza de ler e dedicar o precioso tempo para comentar o texto. Quantas visões e observações ricas e interessantes. Com a palavra conseguimos abrir clareiras para expandir mais espaço em nosso imaginário. Valeria horas de reflexões e diálogos. Como se fosse uma escada em construção. Cada intervenção, um novo degrau!
    Abs

  • Rogério Castro disse:

    “ Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”
    Geraldo Vandré.
    Excelente texto com ótimas colocações!!!
    Cumprimentos, Tombini!!
    Abraço!!!

  • Tânia Cadaval disse:

    Tânia Cadaval

  • Celso cunha azevedo disse:

    Espetacular!
    Na veia!

  • Édson Leite disse:

    Dr. Nelio Tombini.

    Excelente o texto, mas mais ainda a sabedoria de através da escrita e pensamentos fazer que mínimo nos conduza a realizar uma excelente reflexão.
    Enganar a própria mente acredito que seja um dos maiores males da própria humanidade.
    Nesta oportunidade gostaria de agradecer e que o Dr. Nelio continuasse a nos elucidar com seus pensamentos e palavras.
    Que continuemos a viver nossas vidas e busquemos sempre a Esperança com sapiência!!!

    Édson Leite.

  • Maria Inês Pugliese disse:

    Nelio
    Lembrando ” JUNO ” , ( em grego janeiro ), o Deus romano , dos inícios, dos começos e mudanças a esperança não comparece por que é intangível e todo o é resto ativo.
    Nesse mês de janeiro iniciamos com uma forte alteração de temperatura. E não há esperança que venha mudar.
    Gostei muito do teu texto e já compartilhei.

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Nelio Tombini

Nelio Tombini

Médico psiquiatra, CRM/RS 5440, psicoterapeuta, palestrante e autor do livro A Arte de Ser Infeliz - Desarmando as armadilhas emocionais.

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