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 “Olho por olho, dente por dente.”

Quem não ouviu falar neste ditado. Ele é de 1780 a.C., a Lei de Talião, do Código de Hamurabi, que autorizava a vingança.

Se há um sentimento forte e que promete ser satisfatoriamente recompensador, é o desejo de vingança. Porém, mais forte que suas promessas são suas consequências nefastas.

Vou propor uma divisão acadêmica para entendermos melhor o sentimento de vingança. Há dois tipos de vingança: a consciente e a inconsciente. Tanto um quanto o outro fazem muito mal para nossa saúde mental e mesmo para o bem-estar físico. Sim, pode dar gastrite, elevar a pressão arterial, perder o sono, e muito mais. São sentimentos que tomam conta de nosso ser, controlam nossos ânimos e conduzem nossas ações. Em outras palavras, não importa se a intenção de se vingar é um impulso indomável ou um plano racional, de qualquer forma, é algo que nos intoxica. É um tipo de impulso que nos escraviza.

O desejo de vingança consciente é fácil de identificar, não carece de muitas explicações. É algo que surge e é identificado pela pessoa, que passa a agir no sentido de levar seu plano a cabo. Contudo, quando esse sentimento é inconsciente, ele fica ainda mais perigoso, embora seja igualmente malévolo.

Um bom exemplo para ilustrar como o revanchismo inconsciente ocorre é a nas relações de trabalho. Pense em uma situação constrangedora de trabalho, em que um chefe desdenha, achincalha ou age de forma grosseira com um funcionário. Este está – digamos – hierarquicamente impedido de reagir à altura, a priori. Dificilmente o subalterno gozará de liberdade suficiente para responder da forma devida ao superior que lhe tratou de modo grosseiro, vexatório. Então, trata de “engolir esse sapo” imediatamente. Só para lembrar a vocês, sapo não se digere, não chega ao estômago, fica sempre trancado na garganta!  Neste contexto, o funcionário pode ter vivido experiências infantis de maus tratos que foram reprimidas, mas latejam no seu inconsciente. No momento que vivencia algo parecido, estas vivências vêm à tona e se juntam ao conflito atual. Mesmo tentando esquecer-se dessa mágoa, esse trabalhador tende a guardar consigo algum rancor. E é aí que a vingança inconsciente surge.

Sem aperceber-se, o funcionário que fora constrangido começa então a sabotar seu próprio trabalho, perde o desejo e energia para trabalhar, demora-se a cumprir metas, atrasa-se, entrega tarefas mal-executadas, enfim. É claro que no fim das contas o patrão quem sairá prejudicado, pois acabará sofrendo algum prejuízo financeiro em função da incompetência vingativa de seu empregado. Todavia, dificilmente este não pagará a conta de sua revanche inconsciente. Evidentemente, que este funcionamento descrito acima, consumirá energia do sujeito, trará desconfortos psíquicos e, em consequência, a presença de sintomas, como: angústia, irritabilidade, apatia, etc. Outro possível dano, pode ser a demissão.

Outro exemplo. Uma mulher que está aborrecida com o marido, mas não consegue falar sobre suas chateações. É convocada para transar todas as noites. Cede, mas não se sente bem, não tem prazer. O próximo passo, poderá sentir dor na relação sexual e desta forma pode se retirar da vida sexual. É a vingança inconsciente que entra em jogo. Resultado: ruim para os dois. Caso expressasse sua real chateação, provavelmente não teria sintomas ligados a sexualidade.

Há muitas outras formas de vingança inconsciente. Quando nos desagradamos das atitudes de familiares, por exemplo. Tentando manter uma harmonia inviável, vamos nos submetendo, aguentando em silêncio o desrespeito; de súbito, podemos nos sentir mal naquele ambiente e, algum mal-estar físico, pode nos autorizar a retirada do local.

Os planos de vingar-se não deixam de ser uma maneira de permanecer vinculado no nosso imaginário a pessoa de quem queremos retaliar. Mesmo que consigamos alguma atitude prejudicial ao outro, ficaremos pensando se o estrago foi grande na vida do outro e assim vamos ficando fixados nesta ruminação sem fim. Para a vingança se manter viva, precisamos alimentá-la com raiva e desejo de retaliação. Estes dois componentes vão nos atacando internamente, como se bebêssemos uns cálices de ácido todos os dias. É um péssimo negócio que só se justifica pela nossa pouca saúde mental. Melhor que vingar-se é dizer para o outro que não gostamos, que nos aborrecemos, etc. Revelar o desconforto.

É preciso que estejamos esclarecidos sobre essas situações desagradáveis da vida, saber que, sim, as pessoas – cedo ou tarde – hão de nos desagradar, de nos aborrecer, de nos machucar. E nós também faremos isso com os outros. Somos seres imperfeitos, ou melhor, “comunzinhos”.

Um bom remédio para tentarmos não nos vingarmos de coisas e situações ocorridas, é pensar que não somos tão importantes e maravilhosos diante da vida e dos outros. Dá para afirmar-se, que quem deseja vingar-se quer ficar vinculado ao outro, não quer resolver a mágoa, não quer terminar o vínculo. Há um ditado que diz: “antes só do que mal acompanhado”. Para o sujeito que deseja a vingança, inverte-se o ditado: “antes mal acompanhado do que só”, pois o outro continua presente em sua imaginação, no seu dia a dia.

Reforçando, o vingador vinga-se de si mesmo, pois fica paralisado, e se descompromete em cuidar de sua vida. Sua energia fica fixada neste processo doentio, que beira a psicose. O pensamento não sai desta ruminação. É como se fosse um disco antigo de vinil, onde a agulha tranca, e a música e letra se repetem. Nos levará a loucura.

Créditos da imagem que ilustra este artigo: SIphotography

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Nelio Tombini

Nelio Tombini

Médico psiquiatra, CRM/RS 5440, psicoterapeuta, palestrante e autor do livro A Arte de Ser Infeliz - Desarmando as armadilhas emocionais.

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